vértebra

ensaia a expansão do corpo para espaços ainda não sabidos

quais motivos interromperiam furacão Quinta, 14 de Setembro de 2017

me pergunto.

estou há 3 ou 4 semanas querendo escrever querendo parar

um minutinho com a mente junto colocar as coisas no papel ou até mesmo rever algo que escrevi caoticamente mas nem isso fui capaz o que é uma pena aquele rascunho sobre a intuição enquanto condutora era mesmo ótimo quem sabe mais pra frente enquanto isso 

por aqui: furacão, túnel longíquo, tremor intenso

pausa rápida

é isso:

image

certeza de que quando uma dessas grandes ~catástrofes naturais acontecem elas chegam antes em anúncio dentro dos corpos de algumas pessoas, certeza

e agora faz todo sentido

agora que finalmente paro pra escrever pois não me resta alternativa

logo agora que estou prestes a pifar de tanto movimento

meus dedos hoje algumas vezes gritaram socorro não podemos mais

eles mesmos atuam enfurecidamente  

essa escrita bastante irrelevante tenta compartilhar meu estado

não sei como fazer isso com a escrita sem ser escrevendo escrevendo escrevendo confiando que tudo está sendo impresso aqui

como se você pudesse ler através das palavras sentir como anda minha respiração – nada fácil, adianto – a velocidade desse movimento a temperatura da cama onde estou nesse instante a tensão do meu pescoço como eu amaria que ele estivesse bem molinho gostoso de apertar, mas realidade

essa é uma escrita crua e irrelevante, o que já oferece coesão suficiente

lembrei que também queria dizer o quanto me soou estranho escrever catástrofe como se algo nascesse enquanto catástrofe e não fosse uma designação de quem vive e/ou percebe, por exemplo

os furacões

desconfio que nenhum furacão se perceba uma catástrofe

furacão nasce furacão realiza furacão vai embora furacão, então

se eu fosse furacão eu diria: um sucesso!

voltamos aqui para o meio de setembro, interrompido pela notícia de cancelamento da gaga 

meus sentimentos a todas as viadas não representadas pela curadoria hétero curativa das coisas do mundo, mas há de ser diferente porque a gente vem tambem furacão bb

para contar antes do fim que esse período em que não tenho conseguido escrever eu tenho – caramba – revirado tudo

& tomo nota:

1. muita gente pedindo ajuda o que em parte é bom estamos sabendo pedir ajuda 2. há algumas horas li uma amiga dizer que várias pessoas já manifestam tiques nos dedos por causa do uso de celular socorro meu polegar está gritando nesse dia não me achava dependente pelo visto preciso continuar revirando as coisas 3. decidi que não vou rever esse texto é a primeira vez que isso acontece me deseje sorte se você chegou até aqui com essa escrita cheia de irrelevâncias vamos tomar uma nota realmente importante até aqui tudo é pó 4. rafael braga está em casa – ainda falta muito mas caminhamos – falamos de furacões de catástrofes de designações estamos aqui 2017 entre trancos e barrancos algo que faz muito meu corpo vibrar num grito de alegria e fé
seja lá o que vem depois disso 5. falando em fé, também tem o avesso dela mostrando a cara em massacres muitos massacres isso me abala as estruturas de modo que perco a fala por uns instantes mas não tanto pra não dizer tem um poema de URGENTE leitura chama APOCALIPSE CUÍER da tatiana nascimento dos santos e eu vou povoar todos os espaços que eu puder com ele, vou sim:


APOCALIPSE CUÍER

cuíer A.P. (ou oriki de Shiva):

nós vamos destruir tudo que você ama
e tudo que c chama “amor”
nós vamos destruir

porque c chama “amor à pátria”
o que é racismo
c chama “amor a deus”
o que é fundamentalismo
c chama “amor pela família”
o que é sexismo homofóbico y
c chama transfobia de “amor à natureza”
c chama de “amor pela segurança”
o que é militarismo
y o capitalismo
c chama de “amor pelo trabalho”
o que c chama de “amor à humanidade”
é especismo, y esse seu “amor pela Palavra”
na real é só um caso histórico de má-tradução – que
conveninente, chamar deus de “ele”, mas se
liga: nós somos seu apocalipse
cuíer. y o que c chama de
“amor pela liberdade”,
“pela justiça”, toda

essa sua ideia de “civilização” é
assassinato, é genocídio,
quer matar tudo
que ri, que goza, que dança,

quer matar a gente.

mas a gente vinga

que nem semente daninha:
a gente sobre
vive!

tá vendo? já começou!
sente a pulsação vibrando
o chão: é o beat do nosso coração!

porque a gente, que você amaldiçoa
em nome do seu amor doentio
normativo,
segregador,
a gente que é amante,
a gente é que vive y espalha

amor.


  1. imagem: saia (2009), clarice lima
  2. poesia publicada em https://palavrapreta.wordpress.com/2016/07/10/apocalipsecuier/
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